segunda-feira, 23 de setembro de 2024

A imensidão da vida

    Eis a pergunta que cala muitos muitos homens: qual o sentido da vida? Aristóteles, ao erguer a mão para responder "a felicidade!", já traça um caminho intuitivo para descobri-lo. No entanto, o que fazer quando os meios para supostamente alcançá-la são cessados?

    A mídia nos entrega o sucesso, o dinheiro e às vezes até a família, mas nada disto preenche o vazio da alma humana: "Onde há o espírito, não é possível matar a insaciedade com a finitude da matéria" (A doutrina de freud. Pe. Antônio d'Almeida Júnior). Porém, o que fazer quando suas pernas fraquejam e não se consegue mais andar? Em vez de ajudar a caminhar, querem abreviar sua vida para poupá-lo do sofrimento de não poder aproveitá-la como se espera. É o que aconteceu em "O Escafandro e a Borboleta" (Schnabel, 2008) e em "Como eu era antes de você" (Sharrock, 2016). A brevidade da vida, ao ser abordada em ambas, vai, não mostra apenas casos particulares – ainda que um seja baseado em uma história real e outro, em um romance fictício –, mas envolvem e modelam o pensamento sobre a luta pela vida de toda uma geração.

O escafandro e a borboleta (2008)

    Jean, um homem de 43 anos que acorda aprisionado em seu próprio corpo e a única parte que se mexe é a pálpebra de seu olho esquerdo, luta pela vida até o fim e dá um sentido a ela. E ele não é o único que se aproveita e se fortalece por tal ampliação do horizonte, mas é um exemplo para seus filhos, os enfermeiros e todos aqueles que puderam conhecê-lo quer seja na vida ou após a morte, mediante seu livro, cujo título é homônimo ao famoso filme de 2008. Rico, a única possibilidade que o dinheiro lhe ofereceu foi viver o restante de sua vida com comida e lar, mas toda a sua trajetória existencial foi definida pelo sentido. É natural a vontade de viver.

    Ainda que não tenha sido milagrosamente curado como Santa Gemma Galgani nem tenha tido uma proximidade tão íntima da Felicidade (com F maiúsculo, verdadeiramente), foi um exemplo de quão bela a vida é e que o seu fim exalta sua beleza: "A vida é preciosa porque ela acaba" (O menino do pijama listrado. Herman, 2008). O instinto de sobrevivência, o amor à vida, falou mais alto. 

Como eu era antes de você (2016)

    No entanto, o que dizer do desfecho do livro-filme para adolescentes (intencionalmente ou não, é o público principal) "Como eu era antes de você"? A apologia ao suicídio – disfarçado sob o eufemismo de eutanásia – é expressivamente atenuada ao longo da obra. As mocinhas podem ter ido às lágrimas com o pseudodrama envolvido, mas e os tetraplégicos da vida real? E aqueles que sequer têm uma família financeiramente abastada para suprir suas necessidades básicas? E aqueles que um dia podem encontrar a si ou a um amigo ou familiar em semelhante condição? E se não fosse somente um tetraplégico, mas uma menina que fora violada? A construção de um romance em torno de questões delicadas não é o problema, mas o uso dele para um desfecho suicida - o qual, queira ou não, criará uma influência sem repulsas, dados toda a beleza exterior da obra e o impulso midiático em torná-lo normal - para os futuros regentes do mundo: os jovens. É deturpando os valores na juventude rebelde que até o mais básico de todos - a vida! - será (e já está sendo) relativizada. 

    A vida não se restringe ao potencial que o corpo pode promover, nem ao trabalho ou até mesmo a família – tudo isso lhe foi tirado e redefinido. Jean buscou uma razão para viver e, apesar de não ter encontrado a Razão Primordial – que responde às questões existencialistas o suficiente, ao menos, para que o homem dê um valor inestimável à vida –, lutou a partir de seu horizonte graças ao amor. Sua liberdade, tal qual a de Santa Gemma, era outra: o amor. Amando a própria vida, Jean pôde amar sua família e sua borboleta. Aceitou sua condição buscando um sentido para tudo aquilo.

    As vidas de Jean-Baptiste Bauby e de Santa Gemma Galgani são verdadeiras referências para a luta pela vida neste mundo, e infelizmente não são uma febre - e talvez nunca o sejam - para aqueles que manipulam o consumo e o pensamento dos jovens.


Santa Gemma Galgani


domingo, 22 de setembro de 2024

Maria "pecou em Adão" e não herdou o pecado original


    O trecho a seguir pertence ao capítulo II do livro "A mulher bendita diante dos ataques protestantes", do Pe. Júlio Maria Lombaerde. Uma das explicações da passagem de Rm 5, 12 é que a Virgem Maria "pecou em Adão" por ser descendente do sangue dele, mas não herdou o pecado original. Por tal preservação, a Virgem Santa também precisou do sacrifício de Nosso Senhor na cruz, isto é, Jesus morreu para salvar também Maria. Abaixo, segue uma parte do respectivo capítulo.
  1. "Maria Sma. é do sangue de Adão e Eva: Como tal pecou em Adão, mas como tal pecado em Adão, é transmitido pelo sangue, é perfeitamente possível a Deus impedir esta transmissão.

Tal preservação é feita em virtude da antecipação dos merecimentos do Salvador. Deste modo, Maria Sma. é a primeira resgatada e o mais sublime troféu de vitória do Redentor. É o milagre que Deus fez. 
O sangue pecaminoso de Adão e Eva devia chegar até Maria Sma., mas antes de participar de seu ser, neste momento quase imperceptível, em que a alma criada por Deus devia unir-se ao sangue formado pelos progenitores, para formar a pessoa de Maria Sma., Deus retirou o pecado e a Virgem nasceu do sangue regenerado, purificado de Adão e Eva, sendo ela, Maria, preservada de todo contato do pecado. Tal é o privilegio da lmmacu1ada Conceição.

Bem vê o caro protestante que a lei geral, traçada por S. Paulo, não foi violada de modo nenhum, mas basta saber interpretai-a. Podemos, pois, repetir com o Apostolo. Todos pecaram em Adão. 
Mas: todos não receberam o sangue pecaminoso de Adão. Jesus Cristo não podia recebei-o, por ser Deus. Maria Sma. não podia recebei-o, por ser Mãe ele Deus. o Christo foi isento do pecado original por natureza. Maria Sma. o foi por preservação; São Joio Batista o foi por purificação."

 

Possivelmente, o leitor também encontrou dificuldade em entender o que o sacerdote quis explicar. A fim de esclarecê-lo, aqui abaixo está um comentário do colega André Almeida sobre esse texto. 

"Quando o Pe. Lombaerde fala que Maria 'pecou em Adão' não se refere a um pecado individual. É 'pecou' com muitíssimas aspas, por isso mesmo ele coloca até em itálico. 'Pecar em Adão' quer dizer que Maria, assim como todos os outros homens e mulheres, caíram junto de Adão quando Adão pecou, porque Adão não é somente um indivíduo, mas o patriarca de todo o gênero humano.
 
E isso não diz respeito somente à nossa culpa do pecado original, mas também à decadência do gênero humano como um todo. Isso só foi redimido quando o Filho se encarnou em nossa natureza como Novo Adão. Jesus redime nossa decadência pela queda de Adão se tornando novo Adão, e renovando todo o gênero humano. Maria também precisou dessa redenção mesmo sendo inocente do pecado original.

  1. E aqui ele usa isso como argumento pra rebater os protestantes que nos acusam de divinizar Maria. É um argumento teológico bem refinado que obviamente não é casual, então é comum de um leigo estranhar pelo linguajar.

  2. Em síntese: Mesmo sem pecado original, o gênero humano ainda estava podre por causa da dita queda de Adão e precisava de Deus pra redimir isso, o que inclui Maria. Maria não foi 'excluída' da remissão do gênero humano por estar isenta do pecado."

Como pode ver o leitor, ao dizer que Maria Santíssima pecou em Adão, o querido presbítero quis dizer que ela precisou, tal qual um descendente de Adão, da Redenção para ser salva.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

O fariseu e a pecadora encontram Jesus

    Não basta o encontro com Jesus – afinal, também o ladrão zombador na cruz se encontrou. É preciso abrir o coração para ele. O fariseu, sob o véu da aparência, condenou a mulher porque, quando a olhava, via seu pecado, mas Nosso Senhor quando lhe olhava, via um coração arrependido e disposto a amá-lo. Quantas vezes não condenamos os irmãos que querem abandonar o pecado, mas não queremos acolhê-lo? Para o fariseu, era um encontro normal, e ele não o aproveitou. A mulher não; esta humilhou-se: lavou seus pés, enxugou-os com os cabelos, beijou-os e ainda os perfumou. O fariseu, de nariz empinado, não fez nada disso e ainda se pôs a criticá-la, como se ele não tivesse pecados nem fosse inferior Àquele que pode perdo-alos. 

    E - RASCUNHO EPLA METADE

Comentário formulado a partir da homilia de Pe. Luís.