Eis a pergunta que cala muitos muitos homens: qual o sentido da vida? Aristóteles, ao erguer a mão para responder "a felicidade!", já traça um caminho intuitivo para descobri-lo. No entanto, o que fazer quando os meios para supostamente alcançá-la são cessados?
A mídia nos entrega o sucesso, o dinheiro e às vezes até a família, mas nada disto preenche o vazio da alma humana: "Onde há o espírito, não é possível matar a insaciedade com a finitude da matéria" (A doutrina de freud. Pe. Antônio d'Almeida Júnior). Porém, o que fazer quando suas pernas fraquejam e não se consegue mais andar? Em vez de ajudar a caminhar, querem abreviar sua vida para poupá-lo do sofrimento de não poder aproveitá-la como se espera. É o que aconteceu em "O Escafandro e a Borboleta" (Schnabel, 2008) e em "Como eu era antes de você" (Sharrock, 2016). A brevidade da vida, ao ser abordada em ambas, vai, não mostra apenas casos particulares – ainda que um seja baseado em uma história real e outro, em um romance fictício –, mas envolvem e modelam o pensamento sobre a luta pela vida de toda uma geração.![]() |
| O escafandro e a borboleta (2008) |
Jean, um homem de 43 anos que acorda aprisionado em seu próprio corpo e a única parte que se mexe é a pálpebra de seu olho esquerdo, luta pela vida até o fim e dá um sentido a ela. E ele não é o único que se aproveita e se fortalece por tal ampliação do horizonte, mas é um exemplo para seus filhos, os enfermeiros e todos aqueles que puderam conhecê-lo quer seja na vida ou após a morte, mediante seu livro, cujo título é homônimo ao famoso filme de 2008. Rico, a única possibilidade que o dinheiro lhe ofereceu foi viver o restante de sua vida com comida e lar, mas toda a sua trajetória existencial foi definida pelo sentido. É natural a vontade de viver.
Ainda que não tenha sido milagrosamente curado como Santa Gemma Galgani nem tenha tido uma proximidade tão íntima da Felicidade (com F maiúsculo, verdadeiramente), foi um exemplo de quão bela a vida é e que o seu fim exalta sua beleza: "A vida é preciosa porque ela acaba" (O menino do pijama listrado. Herman, 2008). O instinto de sobrevivência, o amor à vida, falou mais alto.
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| Como eu era antes de você (2016) |
No entanto, o que dizer do desfecho do livro-filme para adolescentes (intencionalmente ou não, é o público principal) "Como eu era antes de você"? A apologia ao suicídio – disfarçado sob o eufemismo de eutanásia – é expressivamente atenuada ao longo da obra. As mocinhas podem ter ido às lágrimas com o pseudodrama envolvido, mas e os tetraplégicos da vida real? E aqueles que sequer têm uma família financeiramente abastada para suprir suas necessidades básicas? E aqueles que um dia podem encontrar a si ou a um amigo ou familiar em semelhante condição? E se não fosse somente um tetraplégico, mas uma menina que fora violada? A construção de um romance em torno de questões delicadas não é o problema, mas o uso dele para um desfecho suicida - o qual, queira ou não, criará uma influência sem repulsas, dados toda a beleza exterior da obra e o impulso midiático em torná-lo normal - para os futuros regentes do mundo: os jovens. É deturpando os valores na juventude rebelde que até o mais básico de todos - a vida! - será (e já está sendo) relativizada.
A vida não se restringe ao potencial que o corpo pode promover, nem ao trabalho ou até mesmo a família – tudo isso lhe foi tirado e redefinido. Jean buscou uma razão para viver e, apesar de não ter encontrado a Razão Primordial – que responde às questões existencialistas o suficiente, ao menos, para que o homem dê um valor inestimável à vida –, lutou a partir de seu horizonte graças ao amor. Sua liberdade, tal qual a de Santa Gemma, era outra: o amor. Amando a própria vida, Jean pôde amar sua família e sua borboleta. Aceitou sua condição buscando um sentido para tudo aquilo.
As vidas de Jean-Baptiste Bauby e de Santa Gemma Galgani são verdadeiras referências para a luta pela vida neste mundo, e infelizmente não são uma febre - e talvez nunca o sejam - para aqueles que manipulam o consumo e o pensamento dos jovens.
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| Santa Gemma Galgani |







