sexta-feira, 11 de outubro de 2024

A casa do nosso coração

    Leitura do Evangelho segundo São Lucas (Lc 11, 15-26)

    No Evangelho de São Lucas, havia uma casa cujo demônio foi expulso por alguém mais forte. Enquanto vagava pelo deserto, decidiu retornar a ela e a encontrou vazia. Ao notar a oportunidade, saiu e voltou com mais seis demônios piores do que ele.

    Temos que vigiar a casa do nosso coração. No Batismo, o demônio que habitava o nosso coração por causa do pecado original é expulso. Se uma pessoa pecar gravemente, caindo em uma vida toda errada, será pior do que antes, como atesta o Evangelho: ela tinha só um demônio e depois tinha mais seis piores que o primeiro. 

    Como diz o ditado popular: "Mente vazia é oficina do diabo". Da mesma forma funciona o nosso coração, que não deve ser negligenciado. A casa não estava bagunçada, a Escritura é clara em dizer que está arrumada e limpa. No entanto, o dono se descuidou e saiu. "Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar." (1 Pe 5, 8).

    Para baseá-la em um exemplo da vida cotidiana, é similar a um ex-alcoólatra que passa 15 anos sem pôr um pingo de álcool na boca, mas um dia diz "Ah, mas se eu só tomar um gole... já faz 15 anos, eu posso me controlar!" e assim cai em uma cova muito mais profunda que a anterior, entregando-se não só à bebedeira, mas a outros pecadores ainda piores.

    Isso não acontecia com Nossa Senhora. Por quê?  Porque ela estava vazia de si e cheia da graça, cheia de Deus. A mente nem o coração da Virgem Maria estavam vazios, pelo contrário: o que lhe acontecia, o Evangelho nos diz que "Ela meditava em seu coração". As nossas maiores armas são a Missa, o Santo Terço, a Confissão e a meditação da Palavra de Deus. É nessa união íntima com Deus que nos protegemos. Se nos armarmos assim, não precisaremos ter medo porque escolhemos Deus, uma escolha que deve ser renovada todos os dias.

    Uma observação é que essa passagem também nos mostra a importância de não murmurar, isto é, não reclamar. Um santo costumava dizer que "reclamar é louvar ao demônio". E quantas vezes não reclamamos no dia a dia, como se isso fosse mudar alguma coisa? Precisamos ser gratos todos os dias pela amor de Deus e até mesmo pelos sofrimentos no dia a dia, por piores que sejam, pois "não cai um fio de nossas cabeças sem que ele o permita", e tudo isso permite a nossa santificação e união com Ele.


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

A imensidão da vida

    Eis a pergunta que cala muitos muitos homens: qual o sentido da vida? Aristóteles, ao erguer a mão para responder "a felicidade!", já traça um caminho intuitivo para descobri-lo. No entanto, o que fazer quando os meios para supostamente alcançá-la são cessados?

    A mídia nos entrega o sucesso, o dinheiro e às vezes até a família, mas nada disto preenche o vazio da alma humana: "Onde há o espírito, não é possível matar a insaciedade com a finitude da matéria" (A doutrina de freud. Pe. Antônio d'Almeida Júnior). Porém, o que fazer quando suas pernas fraquejam e não se consegue mais andar? Em vez de ajudar a caminhar, querem abreviar sua vida para poupá-lo do sofrimento de não poder aproveitá-la como se espera. É o que aconteceu em "O Escafandro e a Borboleta" (Schnabel, 2008) e em "Como eu era antes de você" (Sharrock, 2016). A brevidade da vida, ao ser abordada em ambas, vai, não mostra apenas casos particulares – ainda que um seja baseado em uma história real e outro, em um romance fictício –, mas envolvem e modelam o pensamento sobre a luta pela vida de toda uma geração.

O escafandro e a borboleta (2008)

    Jean, um homem de 43 anos que acorda aprisionado em seu próprio corpo e a única parte que se mexe é a pálpebra de seu olho esquerdo, luta pela vida até o fim e dá um sentido a ela. E ele não é o único que se aproveita e se fortalece por tal ampliação do horizonte, mas é um exemplo para seus filhos, os enfermeiros e todos aqueles que puderam conhecê-lo quer seja na vida ou após a morte, mediante seu livro, cujo título é homônimo ao famoso filme de 2008. Rico, a única possibilidade que o dinheiro lhe ofereceu foi viver o restante de sua vida com comida e lar, mas toda a sua trajetória existencial foi definida pelo sentido. É natural a vontade de viver.

    Ainda que não tenha sido milagrosamente curado como Santa Gemma Galgani nem tenha tido uma proximidade tão íntima da Felicidade (com F maiúsculo, verdadeiramente), foi um exemplo de quão bela a vida é e que o seu fim exalta sua beleza: "A vida é preciosa porque ela acaba" (O menino do pijama listrado. Herman, 2008). O instinto de sobrevivência, o amor à vida, falou mais alto. 

Como eu era antes de você (2016)

    No entanto, o que dizer do desfecho do livro-filme para adolescentes (intencionalmente ou não, é o público principal) "Como eu era antes de você"? A apologia ao suicídio – disfarçado sob o eufemismo de eutanásia – é expressivamente atenuada ao longo da obra. As mocinhas podem ter ido às lágrimas com o pseudodrama envolvido, mas e os tetraplégicos da vida real? E aqueles que sequer têm uma família financeiramente abastada para suprir suas necessidades básicas? E aqueles que um dia podem encontrar a si ou a um amigo ou familiar em semelhante condição? E se não fosse somente um tetraplégico, mas uma menina que fora violada? A construção de um romance em torno de questões delicadas não é o problema, mas o uso dele para um desfecho suicida - o qual, queira ou não, criará uma influência sem repulsas, dados toda a beleza exterior da obra e o impulso midiático em torná-lo normal - para os futuros regentes do mundo: os jovens. É deturpando os valores na juventude rebelde que até o mais básico de todos - a vida! - será (e já está sendo) relativizada. 

    A vida não se restringe ao potencial que o corpo pode promover, nem ao trabalho ou até mesmo a família – tudo isso lhe foi tirado e redefinido. Jean buscou uma razão para viver e, apesar de não ter encontrado a Razão Primordial – que responde às questões existencialistas o suficiente, ao menos, para que o homem dê um valor inestimável à vida –, lutou a partir de seu horizonte graças ao amor. Sua liberdade, tal qual a de Santa Gemma, era outra: o amor. Amando a própria vida, Jean pôde amar sua família e sua borboleta. Aceitou sua condição buscando um sentido para tudo aquilo.

    As vidas de Jean-Baptiste Bauby e de Santa Gemma Galgani são verdadeiras referências para a luta pela vida neste mundo, e infelizmente não são uma febre - e talvez nunca o sejam - para aqueles que manipulam o consumo e o pensamento dos jovens.


Santa Gemma Galgani


domingo, 22 de setembro de 2024

Maria "pecou em Adão" e não herdou o pecado original


    O trecho a seguir pertence ao capítulo II do livro "A mulher bendita diante dos ataques protestantes", do Pe. Júlio Maria Lombaerde. Uma das explicações da passagem de Rm 5, 12 é que a Virgem Maria "pecou em Adão" por ser descendente do sangue dele, mas não herdou o pecado original. Por tal preservação, a Virgem Santa também precisou do sacrifício de Nosso Senhor na cruz, isto é, Jesus morreu para salvar também Maria. Abaixo, segue uma parte do respectivo capítulo.
  1. "Maria Sma. é do sangue de Adão e Eva: Como tal pecou em Adão, mas como tal pecado em Adão, é transmitido pelo sangue, é perfeitamente possível a Deus impedir esta transmissão.

Tal preservação é feita em virtude da antecipação dos merecimentos do Salvador. Deste modo, Maria Sma. é a primeira resgatada e o mais sublime troféu de vitória do Redentor. É o milagre que Deus fez. 
O sangue pecaminoso de Adão e Eva devia chegar até Maria Sma., mas antes de participar de seu ser, neste momento quase imperceptível, em que a alma criada por Deus devia unir-se ao sangue formado pelos progenitores, para formar a pessoa de Maria Sma., Deus retirou o pecado e a Virgem nasceu do sangue regenerado, purificado de Adão e Eva, sendo ela, Maria, preservada de todo contato do pecado. Tal é o privilegio da lmmacu1ada Conceição.

Bem vê o caro protestante que a lei geral, traçada por S. Paulo, não foi violada de modo nenhum, mas basta saber interpretai-a. Podemos, pois, repetir com o Apostolo. Todos pecaram em Adão. 
Mas: todos não receberam o sangue pecaminoso de Adão. Jesus Cristo não podia recebei-o, por ser Deus. Maria Sma. não podia recebei-o, por ser Mãe ele Deus. o Christo foi isento do pecado original por natureza. Maria Sma. o foi por preservação; São Joio Batista o foi por purificação."

 

Possivelmente, o leitor também encontrou dificuldade em entender o que o sacerdote quis explicar. A fim de esclarecê-lo, aqui abaixo está um comentário do colega André Almeida sobre esse texto. 

"Quando o Pe. Lombaerde fala que Maria 'pecou em Adão' não se refere a um pecado individual. É 'pecou' com muitíssimas aspas, por isso mesmo ele coloca até em itálico. 'Pecar em Adão' quer dizer que Maria, assim como todos os outros homens e mulheres, caíram junto de Adão quando Adão pecou, porque Adão não é somente um indivíduo, mas o patriarca de todo o gênero humano.
 
E isso não diz respeito somente à nossa culpa do pecado original, mas também à decadência do gênero humano como um todo. Isso só foi redimido quando o Filho se encarnou em nossa natureza como Novo Adão. Jesus redime nossa decadência pela queda de Adão se tornando novo Adão, e renovando todo o gênero humano. Maria também precisou dessa redenção mesmo sendo inocente do pecado original.

  1. E aqui ele usa isso como argumento pra rebater os protestantes que nos acusam de divinizar Maria. É um argumento teológico bem refinado que obviamente não é casual, então é comum de um leigo estranhar pelo linguajar.

  2. Em síntese: Mesmo sem pecado original, o gênero humano ainda estava podre por causa da dita queda de Adão e precisava de Deus pra redimir isso, o que inclui Maria. Maria não foi 'excluída' da remissão do gênero humano por estar isenta do pecado."

Como pode ver o leitor, ao dizer que Maria Santíssima pecou em Adão, o querido presbítero quis dizer que ela precisou, tal qual um descendente de Adão, da Redenção para ser salva.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

O fariseu e a pecadora encontram Jesus

    Não basta o encontro com Jesus – afinal, também o ladrão zombador na cruz se encontrou. É preciso abrir o coração para ele. O fariseu, sob o véu da aparência, condenou a mulher porque, quando a olhava, via seu pecado, mas Nosso Senhor quando lhe olhava, via um coração arrependido e disposto a amá-lo. Quantas vezes não condenamos os irmãos que querem abandonar o pecado, mas não queremos acolhê-lo? Para o fariseu, era um encontro normal, e ele não o aproveitou. A mulher não; esta humilhou-se: lavou seus pés, enxugou-os com os cabelos, beijou-os e ainda os perfumou. O fariseu, de nariz empinado, não fez nada disso e ainda se pôs a criticá-la, como se ele não tivesse pecados nem fosse inferior Àquele que pode perdo-alos. 

    E - RASCUNHO EPLA METADE

Comentário formulado a partir da homilia de Pe. Luís.


terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Sermão aos Peixes - 1 e 2

CAPÍTULO 1 

    Disse Cristo: sois o sal da terra — quer que façam na terra o que faz o sal (impedir a corrupção). Ou o sal não salga ou a terra não se deixa salgar. Se o primeiro, os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; se o segundo, os ouvintes não a querem receber (lembrou-me o caso do homem que defendia o armamento com a justificativa de que, numa guerra, Jesus pegaria em uma arma e mataria os inimigos). Se o sal não salga, pregadores não reiteram em ações suas palavras e os ouvintes lhe imitam: pregadores pregam a si e ouvintes servem a seus apetites. 

    O que fazer se o sal não salga? Mt 5,13: Lance fora como inútil, para que seja pisado de todos. Atrevimento dizer o que Cristo não pronunciou. É merecedor de todo o desprezo (sic) e de ser metido debaixo dos pés com a palavra ou a vida que prega o contrário.

    O que fazer à terra se ela não se deixa salgar? Cristo não resolveu isso no Evangelho, mas Santo Antônio, que pregava contra os hereges na Itália (sic), na cidade Aríminio. Erros de entedimento quase lhe custaram a vida. Que ele faria? Deixou a praça e foi às praias: "Já que não me querem ouvir os homens, que me ouçam os peixes". Os outros santos foram o sal da terra. Domina maris: Senhora do mar.






sábado, 1 de dezembro de 2018

Menino de engenho – José Lins do Rego

    Menino de engenho é uma obra feita por José Lins do Rego, em 1932, que conta, em primeira pessoa, parte de sua história de vida, tendo como narrador Carlinhos. 
   Carlinhos é um menino que, aos quatro anos de idade, perde a mãe, Clarisse, assassinada pelo pai por tiros, que é mandado ao hospício. O menino sofreu muito ao encontrar sua mãe ensanguentada e seu pai deitado sobre ela, no quarto deles; quer beijá-la, abraçá-la e ficar próximo a seus pais, porém é obstado e levado a outro local de sua residência, onde brinca com seus amigos sem dar atenção ao que as criadas dizem a respeito do ocorrido e, à noite, chora em sua cama com saudades da mãe. 
   Seu pai fora excelente em seu papel, sendo sempre carinhoso, atencioso e presente, mas havia seus momentos de desentendimento com a mulher, assim como outrossim havia os beijos e momentos a sós; ele tinha um temperamento muito excitado e um louco amor pela esposa, o que fizera cometer tal crime. Clarisse tinha cabelos pretos e era pequena, além muito amada pelos criados e carinhosa com seu filho.
   Três dias após a tragédia, tio Juca busca o sobrinho Carlinhos para este morar no engenho do avô materno em Pilar, ainda na Paraíba, enquanto no trem fala sobre o pai do menino ser doido. Ao chegar no engenho, ele é muito bem recebido e admirado pelo povo, além de ter batizado-se nas águas do rio Paraíba. Carlinhos e seus três primos (dois meninos e uma menina — todos mais velhos) passavam o dia brincando. Sua tia Sinhazinha era uma idosa de aproximadamente 70 anos que é bastante rígida, além de odiada pelas negras, assustar os moleques com sua presença e assumir o controle da casa do avô do menino. Tia Maria era mãe de Lili, uma prima sua bastante pálida e magra que tinha a sua idade e olhos azuis e cabelos loirinhos que, certo dia, amanheceu vomitando e, no outro, morreu, fato extremamente triste tanto para sua mãe, quanto para seu primo Carlinhos, que fora repleto de cuidados pela mãe dela, proibindo-o de brincar com os primos e ensinando-lhe a ler, algo bastante complicado porque o menino era desatento.

    Numa tarde, o pessoal do engenho é avisado de que Antônio Silvino virá. Certa vez, por um acidental pião caído sobre o pé de Sinhazinha, Carlinhos apanha dolorosamente com uma chinela, fazendo com que o menino tivesse pensamentos vingativos para com sua tia-avó. Num outro dia, também são avisados de que uma cheia passará pelo engenho, o que enche os meninos de prazer porque, assim, podem divertir-se , encontrando os estragos causados.
    Carlinhos vai à casa do dr. Figueiredo aprender a ler, ensinado por sua mulher, Judite, que do marido apanhava; era muito carinhosa com o menino que, tempos depois, foi estuar numa escolinha penuriosa junto a outros meninos que moravam em engenho. Seu avô não era devoto nem ia às missas ou confessava-se, todavia em tudo vinha dele um "se Deus quiser" ou "tenho fé em Nossa Senhora". Com isso, Maria era encarregada de educar Carlinhos e outros meninos religiosamente. A família de Carlinhos e ele próprio são católicos que não têm a praxe de ir à igreja todo domingo, mas em dias santos demonstram-se devotos e religiosos.
     Chico Pereira é torturado após ser acusado de desvirginar Maria Pia; quando esta e sua mãe vão á casa do avô de Carlinhos para resolverem o casamento, forçado da parte da família da mulata, o homem manda buscarem um livro vermelho com uma cruz, com o objetivo da menina pôr a mão nele e dizer a verdade: Juca quem a maleficiou.
     Com o catecismo, Carlinhos deixava de acreditar em lobisomens (o pessoal do engenho acreditava que José Cutia, o vendedor de ovos, era o lobisomem que comia partes dos animais da região) e zumbis (acreditavam que eles encarnavam-se nos animais). A velha Totonha vivia de contar histórias no engenho, tais como as da mil e uma noites e da menina que fora enterrada viva pela madrasta. Mesmo após a abolição da escravatura, as negras do engenho continuaram trabalhando e dormindo na senzala Santa Rosa, onde eram bem tratadas e cuidadas.
   Carlinhos tinha muitos amigos que lhe prendiam em suas conversas e confissões. O menino conseguira um carneiro para montar, denominou-o Jasmim e era seu sonho realizado. Ele era muito carinhoso com o animal, dando-lhe banho com sabonete e penteando-o. Contavam-se histórias do Engenho Santa Fé (denominado agora Engenho do seu Lula, que escondia dinheiro de ouro enterrado, as negras viviam de jejum e uma lata de manteiga era para um mês. Numa noite, um leão enfurecido entrou dentro da casa do homem, que mandou com urgência uma carta ao José Paulino (avô de Carlinhos), pois além disso um doutor queria roubar-lhe a filha, mas era apenas fruto de sua imaginação. Quando já maior, Carlinhos é vítima de puxado, doença que o deixa em cama por um bom tempo. Seus amigos começam a escola, abandonando o enfermo necessitado de companhia.
   Tio Juca guardava muitos segredos: certa vez, Carlinhos, digno de sua intimidade, sozinho, descobriu revistas pornográficas do tio, — o garoto tinha fascínio de admirá-las — até que fora pego pelo dono.
   Durante a ceia, José Paulino contava suas histórias da família: dos tios Ursulino e Leitão. A primeira paixão de Carlinhos fora Judite, que o ensinava letras em seu colo. Aos 8 anos de idade, sob um cajueiro, beijou Maria Clara, uma prima sua de Recife que visitou o engenho com outras parentas. Já mais velho, ouvira uma conversa do seu avô a respeito de seu pai; mais tarde, um médico o diagnosticou como doente e ele teve medo de enlouquecer como o pai.
      A negra Luísa o livrou da castidade, cativando-o a um vício abominável. Quando Maria Menina fora embora e, pouco depois, seus primos também, Carlinhos fora para o internato. A negra Luísa estava prenha e ninguém sabia de quem. O menino era sempre tentado em seu quarto a masturbar-se. Aos 12 anos, como homem, conhecera Zefa Cajá e apaixonou-se por ela. Pouco depois, estava na boca do povo do engenho que ele contraiu sífilis. Puseram Zefa na cadeia e não deixavam menina alguma sozinha com Carlinhos. O moleque Ricardo também contraíra a doença. Ambos remediavam-se veementemente. Por fim, o menino fora para o Colégio, dando esperança a todos de endireitar-se.


Rebecca de Santana.
       
     





quinta-feira, 1 de março de 2018

Triste fim de Policarpo Quaresma – Afonso de Lima Barreto


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    O romance triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, narra em terceira pessoa o exacerbado nacionalismo de um patriota do século XIX ocorrente no estado do Rio de Janeiro. 
    Policarpo Quaresma, major por apelido outrora, não por renome, é um funcionário público sempre pontual que, certa vez, chama o seresteiro Ricardo Coração dos Outros à sua residência para reprodução das modinhas e exibição das riquezas do Brasil, o que faz com que a vizinhança surpreenda-se pelo capadócio cometido por um homem respeitável. 
   Numa tarde de abril, o general Albernaz e o major visitaram a negra Maria Rita à busca de cantigas nacionais para o noivado de Ismênia, filha do general; todavia saíram descontentes pela mulher lembra-se somente do Bicho Tutu. Cavalcânti, noivo de Ismênia, informou a existência de um literata, que deu-lhes entre outras canções o Tangolomango. 
    Chegado o dia, Quaresma, na peça teatral, desmaiou. Ao ser acudido e chegar em casa, aprofundou-se nos estudos do folclore e descobrira que o Tangolomango não era de origem nacional, assim como outras cantigas. Com isso, bateram-lhe a porta e o major a abriu sem cumprimento algum, só desandou a chorar e arrancar seus cabelos, que eram tradições dos tupinambás, originados do Brasil.  
    Cavalcânti marca a data de seu casamento e Quaresma é verdadeiramente denominado major. Coração dos outros relata a Genelício, cursante da faculdade de direito e noivo de sua afilhada Olga, filha de Coleoni, que o major fora internado no hospício Praia da Saudade por escrever uma carta em tupi ao ministro para tornar tal idioma oficial no Brasil por ser raiz deste. Nos jornais, publicaram uma carta ao major que o transformou em escárnio. A afilhada e Coleoni o visitaram e perceberam mais fleumático em relação ao comportamento e após seis meses obtivera alta. Para tal sociedade, era melhor estar morto que no manicômio. Coleoni, não entendendo bem cousas de oficiais, passou o cargo de cabo a Coração dos Outros. Cavalcânti foge para o exterior e abandona Ismênia, deixando-a extremamente triste. 
     Após sair do manicômio, o major compra o sítio Sossego, no município de Curuzu, e vende sua casa de São Januário. Conversando com a afilhada e com Adelaide, sua irmã, fica claro que ainda há nacionalismo em sua alma. O sítio tinha terras maltratadas, mas após esforço do major e Anastácio, tornaram-se de bom cultivo. Enquanto isso, o cabo, em sua choupana, cria a música Alice em homenagem a uma lavadeira negra e é chamado para cantar no casamento de Quinota, filha do general, e, uma semana depois, Olga e Genelício casam-se. Quando o cabo visita o Sossego, Anastácio torna-se agregado do major, que, por sua vez, contrata Felizardo como empregado, rapaz tagarela que afirma em dizer que o major é amigo do presidente Floriano Peixoto. 
      Pode-se perceber também que o major era xenofóbico, afirmando veementemente ser o Brasil o país de terras mais férteis do mundo e nenhum outro o ultrapassava. Aproveitando a opulência de suas plantações, vendia-as, todavia gerando prejuízo irrelevante para Quaresma; para melhor desempenho das colheitas, contratou Mané Candeeiro. 
      Numa terça-feira, o doutor Campos, presidente da câmara, pede ao major que vote nele, o que fora negado por não interessar-lhe a política; como represália, na quinta-feira Policarpo recebeu uma carta com assinatura de Campos alegando cultivar em terras que não era suas, episódio que só apagou-se com uma carta de Olga que pedia a Adelaide tomar cuidado com o manto de Duquesa, sua pata, que sem o consentimento da dona morreu junto a outros animais pelas pragas da região. Numa tarde, recebeu outra carta, que desta vez obrigava o major a apagar uma quantia de quinhentos mil-réis por usar produtos sem respectivo pagamento, total calúnia e mentira, assim como a anterior intimação.  
    Felizardo entregou-lhe o jornal matutino e disse que não trabalharia no dia seguinte; o que fez o major pensar que tinha como motivo o feriado da independência do Brasil, todavia na verdade era porque as forças da Marinha voltaram-se contra o presidente Floriano Peixoto — fato verídico reconhecido como Revolta da Armada (1893).
    Olga e Genelício separam-se por ter acabado todo o gosto e respeito que sentiam um pelo outro e Coração dos Outros finalmente compôs "Os lábios de Carola". 
    O marechal era um homem moralmente preguiçoso, sem amor ao trabalho e fisicamente vulgar. O major viajou até ele a fim de dar-lhe forças para suportar a revolta e fora encarregado oficialmente de major. Quinota casou-se e Ismênia enlouqueceu por causa do noivo que nunca vinha. Logo após conversar com o comandante Bustamante num cortiço, o cabo fora acusado de ser um rebelde e teve o violão cassado. Com um tempo, a revolta passou a ser um divertimento da cidade. 
    O almirante criticava o governo. O general estava tão desesperado com o estado de sua querida filha Ismênia que chamou médiuns e curandeiros para curá-la, fato obstante. O comandante torna Fontes sargento e devolve o violão ao cabo, enquanto Quaresma comandava o campo da revolta. Ismênia, dias após falar à mãe que ia morrer e que o fosse vestida de noiva, faleceu no quarto enquanto vestia-se preparada para enfrentar a morte. 
    Quaresma voltou para o seu sítio, agora abandonado. Adelaide não ficou sozinha porque tinha a presença da mulher de Felizardo, Sinhá Chica, velha curandeira que tirara as pragas que destruíam a colheita. Após saudades do irmão, Adelaide recebera uma carta deste dizendo-lhe que não podia mais escrevê-la porque fora baleado e assassinara: não estava doendo-lhe o corpo, mas sim sua alma e a consciência. 
   Certa noite, um homem de Itamarati veio à procura de Quaresma para prender-lhe e executá-lo. Tentando ajudar, o cabo e Olga resolveram falar com o marechal, diligência obstante. Por fim, o major Policarpo Quaresma arrepende-se por ter sido cegamente nacionalista e por não ter feito nada na vida que realmente tenha dado-lhe felicidade e é executado; Olga reflete e chega à conclusão de que tudo na vida é efêmero.

    Rebecca de Santana